Em entrevista, a escritora Ana Maria Gonçalves afirma que "Um Defeito de Cor não é uma contra-história", mas a afirmação de uma perspectiva historicamente silenciada. O romance de 2006, de 952 páginas, acompanha a trajetória de Kehinde, uma africana escravizada que reconquista a
"Um Defeito de Cor não é uma contra-história", diz Ana Maria Gonçalves
Em entrevista recente, a escritora Ana Maria Gonçalves afirmou que seu romance "Um Defeito de Cor" não deve ser classificado como uma contra-história. A declaração, feita durante um debate no Museu de Arte do Rio (MAR) em 2023, por ocasião da exposição homônima, reposiciona a obra no centro de uma discussão sobre o que significa escrever a partir de uma perspectiva negra no Brasil. Para Gonçalves, o termo "contra-história" pressupõe uma história oficial a ser negada, e ela prefere falar em afirmação de uma memória que sempre existiu, mas foi silenciada. O romance de 2006, com 952 páginas, acompanha a vida de Kehinde, uma africana da etnia jeje, sequestrada ainda criança e trazida para o Brasil. A narrativa reconstitui o Brasil oitocentista, da Bahia ao Maranhão, passando pelo Rio de Janeiro, e culmina com o retorno da protagonista à África, já liberta.
Para Ana Maria Gonçalves, "Um Defeito de Cor" não se propõe como uma contra-história, porque isso implicaria aceitar que existe uma história oficial neutra a ser contestada. A escritora defende que seu romance parte de uma perspectiva negra que sempre existiu, mas foi sistematicamente excluída do registro dominante. A obra, portanto, não nega a história, mas a expande ao narrar a experiência de Kehinde, personagem inspirada em Luisa Mahin, mãe do poeta abolicionista Luiz Gama.
A afirmação de uma perspectiva negra
A declaração de Ana Maria Gonçalves ecoa um debate acadêmico que ganhou força nos últimos anos. A historiadora e crítica literária Lilia Moritz Schwarcz, em ensaio de 2019, já apontava que a literatura brasileira do século XIX construiu uma imagem idealizada do Brasil, silenciando a violência da escravidão. "Um Defeito de Cor" opera em sentido inverso: não apenas denuncia o horror, mas também reconstitui a agência de personagens negras, suas redes de solidariedade e suas estratégias de resistência. Kehinde, a protagonista, não é vítima passiva: ela aprende a ler, negocia, compra sua alforria e se torna uma comerciante bem-sucedida. A obra se insere, portanto, em uma tradição de romances históricos que, segundo a pesquisadora Regina Dalcastagnè (UnB), "reescrevem a história a partir de vozes subalternas, sem cair no maniqueísmo".
O contexto da escravidão no Brasil oitocentista
O romance se passa entre as décadas de 1810 e 1880, período em que o Brasil era o maior importador de africanos escravizados do mundo. Dados do Banco de Dados do Tráfico Transatlântico de Escravos indicam que, entre 1801 e 1850, cerca de 1,5 milhão de africanos desembarcaram nos portos brasileiros. A obra de Gonçalves humaniza essa estatística ao dar nome e história a uma dessas pessoas. Kehinde é capturada no Daomé (atual Benim) e trazida para Salvador, onde é vendida como escrava doméstica. A partir daí, a narrativa costura eventos históricos reais, a Revolta dos Malês (1835), a Guerra do Paraguai (1864-1870), a campanha abolicionista, com a trajetória pessoal da protagonista.
A recepção crítica e o Prêmio Casa de las Américas
"Um Defeito de Cor" foi publicado em 2006 pela editora Record e, no ano seguinte, recebeu o Prêmio Casa de las Américas, um dos mais importantes da literatura latino-americana. A premiação, concedida pela instituição cultural cubana, reconhece obras que "contribuem para o enriquecimento do patrimônio cultural da América Latina e do Caribe". O romance de Gonçalves foi destacado por sua "densidade histórica e literária" e por "dar voz a uma protagonista negra em um período crucial da formação do Brasil". A crítica brasileira, embora majoritariamente positiva, também levantou questões sobre a extensão da obra e a densidade de seus 952 parágrafos (a autora optou por não usar capítulos, apenas parágrafos numerados).
A exposição no Museu de Arte do Rio (2023)
Em 2023, o Museu de Arte do Rio (MAR) realizou a exposição "Um Defeito de Cor", inspirada no romance. A mostra ocupou todo o quinto andar do museu e reuniu cerca de 250 obras de artistas como Rosana Paulino, Dalton Paula e Ayrson Heráclito, além de documentos históricos e objetos do período. A curadoria, assinada por Marcelo Campos e Amanda Bonan, propôs um diálogo entre a ficção de Gonçalves e a história da arte brasileira, com foco na representação da população negra. A exposição foi um marco: pela primeira vez, um romance contemporâneo serviu de eixo curatorial para uma grande mostra institucional no Rio de Janeiro. A própria autora participou da abertura e das visitas guiadas, aprofundando o debate sobre a relação entre literatura e museu.
A polêmica com o cânone literário
A declaração de que "Um Defeito de Cor não é uma contra-história" também dialoga com uma polêmica mais ampla sobre o cânone literário brasileiro. Em 2019, a escritora publicou um artigo no jornal "Folha de S.Paulo" criticando a ausência de autores negros nos vestibulares e nos currículos universitários. Ela apontou que, enquanto Machado de Assis (que era negro) é lido como um autor universal, autores negros contemporâneos são frequentemente classificados como "literatura de nicho" ou "literatura de denúncia". Para Gonçalves, essa classificação é uma forma de manter a hierarquia racial no campo literário. "Um Defeito de Cor" desafia essa hierarquia ao exigir ser lido como literatura, e não como documento histórico ou panfleto político.
A relação com Luiz Gama e Luisa Mahin
Um dos aspectos mais comentados do romance é sua relação com Luiz Gama (1830-1882), o poeta e abolicionista que se tornou símbolo da luta contra a escravidão. Gama foi filho de Luisa Mahin, uma africana livre que participou da Revolta dos Malês. No romance, Kehinde é uma versão ficcional de Luisa Mahin, e seu filho, chamado Luiz, é uma homenagem direta ao abolicionista. A escolha não é casual: ao conectar sua protagonista a uma figura histórica real, Gonçalves insere a narrativa em um debate sobre a memória e o apagamento. Luiz Gama, embora reconhecido como um dos maiores abolicionistas brasileiros, teve sua biografia marcada por lacunas, especialmente sobre sua mãe. O romance preenche essas lacunas com a imaginação literária, mas sem abrir mão da verossimilhança histórica biografia de Luiz Gama e a luta abolicionista.
A escrita como ato político
Para Ana Maria Gonçalves, a escrita é um ato político, mas não no sentido panfletário. Em entrevistas, ela costuma dizer que "todo ato de escrita é político, porque ele escolhe o que contar e o que silenciar". A autora critica a ideia de que a literatura negra precisa ser "didática" ou "explicativa" para o leitor branco. "Um Defeito de Cor" não se preocupa em explicar o que é a escravidão ou o racismo, ela parte do pressuposto de que o leitor já sabe, e o que importa é a experiência subjetiva da protagonista. Essa postura, que a crítica literária Beatriz Resende (UFRJ) chamou de "autonomia estética da literatura negra", é um dos motivos pelos quais a obra é considerada um marco na literatura brasileira contemporânea.
Perguntas Frequentes
Por que Ana Maria Gonçalves diz que "Um Defeito de Cor" não é uma contra-história?
A autora argumenta que o termo "contra-história" pressupõe uma história oficial neutra que precisa ser contestada. Para ela, a perspectiva negra sempre existiu, mas foi silenciada; o romance, portanto, não nega a história, mas a expande ao incluir essa perspectiva.
O romance "Um Defeito de Cor" é baseado em fatos reais?
Sim, a obra é inspirada na vida de Luisa Mahin, mãe do abolicionista Luiz Gama. A protagonista Kehinde é uma versão ficcional de Mahin, e a narrativa incorpora eventos históricos como a Revolta dos Malês e a Guerra do Paraguai.
Onde posso comprar "Um Defeito de Cor"?
O romance foi publicado pela editora Record e está disponível em livrarias físicas e online, além de plataformas digitais como Amazon e Apple Books.
Qual a importância do Prêmio Casa de las Américas para a obra?
O prêmio, concedido em 2007, é um dos mais importantes da literatura latino-americana. Ele reconheceu a densidade histórica e literária do romance, contribuindo para sua projeção internacional e para o debate sobre a literatura negra no continente.
A exposição no MAR ainda está em cartaz?
A exposição "Um Defeito de Cor" no Museu de Arte do Rio ocorreu entre maio e outubro de 2023 e não está mais em cartaz. No entanto, o catálogo da mostra permanece disponível para consulta.
Como "Um Defeito de Cor" dialoga com a literatura brasileira contemporânea?
A obra se insere em uma tradição de romances históricos que reescrevem a história a partir de vozes subalternas, ao lado de autores como Conceição Evaristo e Itamar Vieira Junior. Ela desafia o cânone ao exigir ser lida como literatura, e não como documento ou denúncia.
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